Documento entregue ao IBAMA e INEMA alerta para possíveis impactos da nova usina de biocombustível sobre a fauna silvestre de Mataripe

 

Um documento técnico solicitando a revisão e o aprofundamento dos estudos ambientais relacionados à nova usina de biocombustível da Refinaria de Mataripe foi protocolado junto ao IBAMA e ao INEMA. A iniciativa busca chamar a atenção para possíveis impactos sobre a fauna silvestre e sobre os corredores ecológicos existentes entre as regiões do Coqueiro Grande, Pitinga e Rio Mataripe.


A preocupação surge em razão da localização prevista para o empreendimento, que será implantado em uma área estratégica para o deslocamento de diversas espécies da fauna local e às margens do estuário do rio São Paulo, outro rio importantes que faz limite entre as cidades de São Francisco e Candeias e que também abriga uma diversidade de animais silvestres e que também se conectam ao rio Mataripe. Ao longo dos últimos anos, o monitoramento realizado na região registrou a presença de animais como a jaguatirica e o lobo-guará, ambos ameaçados de extinção; mão-pelada, tamanduás, répteis, aves e outras espécies que utilizam os fragmentos de vegetação e os manguezais para alimentação, abrigo e reprodução.


Um dos principais pontos abordados no documento é a existência de um gargalo ecológico já consolidado na região. Atualmente, a área do Coqueiro Grande possui apenas uma passagem terrestre que conecta os fragmentos florestais ao rio Mataripe, já que trata-se de uma localidade provavelmente ilhada e margeada pelo rio São Paulo, e cercada pela refinaria. Essa passagem é utilizada tanto pela fauna silvestre quanto por veículos. Animais como: o veado-catingueiro, mão-pelada, jaguatirica, preguiça, cuica, gambá, cachorro-do-mato, tatu-verdadeiro, tatu-peba, além de aves terrestres, como: saracura-três-potes, saracura-matraca, sanã-do capim, sanã-carijó, sanã-castanha, além de répteis e anfíbios.


Na imagem, uma mãe jaguatirica e seu filhotes. Espécie ameaçada.

Há mais de uma década, uma extensa cerca foi instalada ao longo de parte dessa área para fins de segurança industrial e no intuito de proteger os carros que trafegam nessa pista. Entretanto, não foram observadas estruturas específicas destinadas à passagem da fauna. Como consequência, o deslocamento natural dos animais pode ter sido reduzido ao longo dos anos, especialmente entre os fragmentos de Mata Atlântica, os manguezais e as áreas úmidas existentes no entorno do Rio Mataripe.

Área de manguezal, árvores nativas e exóticas cercadas, além de uma lagoa.

Com a implantação da nova usina de biocombustível, existe a preocupação de que esse gargalo ambiental seja ampliado. A área prevista para a construção localiza-se justamente em um dos últimos trechos remanescentes capazes de manter a conectividade ecológica entre os ambientes utilizados pela fauna fazendo a conectividade entre as regiões de Coqueiro Grande e Pitinga para o Rio Mataripe. Caso essa conexão seja ainda mais reduzida, espécies de médio e grande porte poderão encontrar maiores dificuldades para acessar áreas de alimentação, reprodução e dispersão.


Com a construção da usina, esse será o único acesso Coqueiro Grande / Rio Mataripe

Um dos aspectos que merecem atenção é que a possível supressão ou obstrução da área onde será implantada a nova usina de biocombustível poderá reduzir ainda mais as opções de deslocamento da fauna silvestre entre os fragmentos de vegetação de Coqueiro Grande, Pitinga e o Rio Mataripe. Caso isso ocorra, muitos animais poderão ser forçados a utilizar rotas alternativas para acessar áreas de alimentação, abrigo e reprodução, já que na área onde será construída a nova usina de biocombustível, além de ser abrigo de espécies que vivem em pequenos fragmentos de mata (capim), é uma área que possui grande movimentação de animais silvestres de médio porte, principalmente à noite. A estrada sentido Cepe Mataripe / Portão 3 é a via mais segura para a fauna silvestre com menor fluxo de veículos em movimento.

Entre essas rotas está a BA-523, uma rodovia com fluxo constante de veículos leves e pesados. O aumento da circulação de animais nas proximidades da pista poderá elevar o risco de atropelamentos, agravando um problema já observado em diversas regiões onde corredores ecológicos foram fragmentados por empreendimentos e obras de infraestrutura.




A manutenção da conectividade ecológica e a implantação de medidas adequadas para a passagem segura da fauna são fundamentais para evitar que espécies como a jaguatirica, o lobo-guará, o mão-pelada, tamanduás e outros animais passem a enfrentar riscos ainda maiores durante seus deslocamentos naturais pela região.


Outro aspecto relevante destacado no documento refere-se aos registros obtidos por meio de câmeras de monitoramento da fauna. Entre eles estão imagens de jaguatiricas adultas e filhotes nas proximidades do Rio Mataripe, evidenciando que a região possui importância não apenas como rota de deslocamento, mas também como área utilizada para reprodução. Registros de lobo-guará também reforçam a relevância ecológica do local.


1 – Guaxinim (Procyon cancrivorus

2 – Jaguatirica (Leopardus pardalis

       3 – Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous

            4 – Saracura-três-potes (Aramides cajaneus) 

               5 - Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) 

      6 – Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus)


A preocupação não está relacionada apenas à presença de espécies isoladas, mas ao funcionamento de todo o ecossistema. Os manguezais, áreas úmidas e fragmentos de Mata Atlântica da região formam um mosaico ambiental que serve de abrigo para inúmeras espécies e desempenha papel fundamental na manutenção da biodiversidade local.


O documento encaminhado aos órgãos ambientais solicita, entre outras medidas, uma reavaliação dos impactos sobre a conectividade ecológica, a realização de estudos complementares sobre corredores de fauna, a análise dos impactos cumulativos causados pelos cercamentos já existentes e a avaliação da necessidade de implantação de passagens de fauna capazes de garantir o deslocamento seguro dos animais silvestres. Outro ponto relevante que foi citado no documento, foi a questão do acesso de pescadores, ambientalistas e visitantes que já frequentam a região do Coqueiro Grande há muitos anos; Como se comportará a Acelen no que diz respeito ao caminho utilizado há décadas por povos tradicionais da região.


A expectativa é que os órgãos competentes promovam uma análise aprofundada da situação, assegurando que o desenvolvimento econômico possa ocorrer de forma compatível com a conservação ambiental e a proteção da biodiversidade existente nas imediações de Coqueiro Grande, Pitinga e Rio Mataripe, já que o próprio RIMA (Relatório de Impacto Ambiental) reconhece que o local do empreendimento trata-se de uma área sensível e território da jaguatirica (Leopardus pardalis), animal ameaçado de extinção.


A preservação dos corredores ecológicos remanescentes poderá ser decisiva para garantir a sobrevivência de espécies que há décadas utilizam essa região como área de abrigo, alimentação e reprodução.


Invasões humanas, outro risco para a fauna silvestre em Mataripe e Pitinga.


Além dos possíveis impactos relacionados à implantação da nova usina de biocombustível, outro fator que merece atenção é o crescimento desordenado das ocupações humanas nas regiões de Mataripe e Pitinga. A expansão dessas áreas tem provocado transformações significativas na paisagem natural, com supressão de vegetação, queimadas, abertura de novas áreas e ocupação de ambientes ecologicamente sensíveis próximos a áreas de APP (Área de Proteção Permanente).


O avanço dessas ocupações representa uma ameaça adicional à biodiversidade local, uma vez que contribui para a fragmentação dos habitats utilizados pela fauna silvestre. Áreas de mata, brejos, lagoas e manguezais vêm sofrendo pressão crescente, reduzindo os espaços disponíveis para alimentação, abrigo e reprodução de diversas espécies. Essas invasões vem avançando sentido a sede do município de São Francisco do Conde e Candeias, gerando um problema ambiental grave e deficiência administrativa do poder público das duas cidades.


Outro problema frequentemente associado a esse processo é o aumento da caça clandestina, prática que continua sendo uma das principais ameaças à fauna da região. A presença de assentamentos e ocupações irregulares próximos aos fragmentos florestais pode facilitar o acesso de caçadores a áreas antes mais preservadas, colocando em risco espécies já vulneráveis e reduzindo ainda mais a biodiversidade local.


A ocupação desordenada também pode resultar no fechamento ou bloqueio de rotas tradicionalmente utilizadas pelos animais silvestres. Quando seus corredores naturais são interrompidos, muitas espécies passam a buscar caminhos alternativos, frequentemente atravessando estradas e rodovias. Como consequência, aumenta o número de atropelamentos de animais, um problema que pode se agravar à medida que novas barreiras sejam criadas na paisagem.


A conservação dos remanescentes de Mata Atlântica, manguezais, lagoas e demais áreas naturais existentes entre Pitinga, Rio Mataripe, e outra região conhecida pelo nome de "Cinquenta" é fundamental para garantir a sobrevivência da fauna silvestre e a manutenção dos serviços ambientais prestados por esses ecossistemas. O desenvolvimento da região deve ser acompanhado de planejamento ambiental adequado, fiscalização eficiente e medidas que assegurem a conectividade ecológica e a proteção da biodiversidade.

O que seria necessário?

Diante do exposto, seria necessário a abertura de passagens de fauna no cercamento já existentes que geraram um gargalo ecológico ao longo dessas duas últimas décadas, já que o manguezal é uma APP e um ecossistema de transição, isso deixará livre o direito de ir e vim da fauna silvestre, e até mesmo dos povos tradicionais que se utilizam do manguezal em suas atividades pesqueiras. A elaboração de projetos de passagens da fauna que acessam as regiões do rio Mataripe, Pitinga, e Coqueiro Grande será fundamental. O combate às invasões em áreas sensíveis em conjunto com o poder público municipal, estadual e federal, desapropriando essas pequenas taperas instaladas próximas aos corredores ecológicos, manguezais, lagoas, rios, brejos e fragmentos de mata atlântica remanescente, já que trata-se de ambientes com grande movimentação da fauna silvestre que acessam essas áreas no intuito de reprodução, abrigo, e de alimentação.





Conheça alguns dos animais que vivem nas proximidades de Pitinga, Coqueiro Grande, e rio Mataripe.




Atualizado em 09/06/2026

Gilmar de Oliveira, ambientalista na região metropolitana de Salvador.





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