Jefinho, o cego 'Pelé paraolímpico' que já soma quatro medalhas de ouro consecutivas

Jefinho, nos Jogos Paraolímpicos do Rio há cinco anos.

Quando eu era criança, tudo podia se transformar em bola aos pés de Jeferson da Conceição Gonçalves, aliás 'Jefinho'. Ele trazia sua mãe pela rua da amargura toda vez que entrava em casa e o via batendo na sala com os pés descalços. Mais de um objeto foi esmagado. Ele o ignorou e então sua mãe deu início à perseguição pela casa enquanto o pequeno aplicava toda sua destreza para correr em volta da mesa e entre as cadeiras, mas sem soltar a bola de seus pés ou do objeto que a substituiria.

Jefinho, como tantas outras crianças no Brasil e no mundo, sonhava em um dia se tornar jogador profissional de futebol. Ele nasceu com glaucoma, uma doença ocular que gradualmente lhe roubou a visão até ficar cego aos seis anos. Então aquele sonho pareceu ficar truncado para sempre ... embora o tempo lhe mostrasse que não.

"Estou muito honrado em ser comparado ao Pelé porque ele é o melhor jogador da história, mas eu sou o Jefinho ”

Ele continuou jogando nas ruas de Candeias, município brasileiro do estado da Bahia, mas embrulhando a bola em plástico para ouvi-la. Hoje o '7' da Seleção Brasileira de Futebol 5 para Cegos é considerado uma estrela deste esporte. Em seu país, eles o reconhecem na rua. Agora ainda mais depois de conquistar seu quarto ouro consecutivo paraolímpico. A canarinha venceu a Argentina por 0-1.

Destaca-se pela velocidade, capacidade de transbordo e forma de conduzir a bola. Vê-lo jogar às vezes parece que vê pelo controle que tem, embora seja impossível não só por causa de sua cegueira, mas porque no futebol eles competem com uma máscara totalmente opaca.

Estreou-se no Brasil aos 14 anos

Essas qualidades valeram-lhe o apelido de 'Pelé Paraolímpico'. Ao ouvir isso, ele sorri. “Sinto-me muito honrado que me comparem a ele porque é o melhor jogador da história, mas eu sou o Jefinho, um jogador que gosta de transmitir alegria a jogar e principalmente aos brasileiros que nos assistem”, confessou ao MARCA durante a celebração do a Copa do Mundo deste esporte em 2018 em Madrid.

Jefinho, na final do Mundial de Madrid contra a Argentina.JAVIER REGUEROS / ONCE

Desde que soube que o futebol para cegos existia e que existia uma seleção, seu sonho era poder jogar. Ele fez sua estreia aos 14 anos no Brasil e sua primeira Copa do Mundo foi em 2006, em Buenos Aires. “Foi um momento muito especial, nunca imaginei que fosse tão longe com a seleção nacional”, confessou ao jornal Marca. Pouco depois, foi selecionado para disputar os Jogos Parapan-americanos Rio 2007 e os Jogos Paralímpicos de Pequim 2008, sendo que em ambos conquistou a medalha de ouro. Foram os primeiros de muitos porque depois chegariam Londres 2012 e Rio 2016, talvez o mais especial porque foi em casa.

Precisamente na nossa casa, em Madrid, a sua equipa foi proclamada campeã do mundo - e ele foi tricampeã do mundo - e ganhou a passagem direta para os Jogos de Tóquio.

“O que mais gosto é da autonomia que tenho dentro de campo. Pessoas com deficiência tendem a depender dos outros no dia a dia, mas isso não acontece em campo”, explica.

E aspira ser modelo para as crianças do Brasil. “O esporte nos ensina muitas lições que a gente leva para a própria vida. Uma delas é o respeito. Você aprende a respeitar os que estão ao seu redor, a viver em grupo, pois as pessoas são diferentes umas das outras. Aprendemos a ganhar e perder, e isso é muito importante, porque na vida também temos vitórias e frustrações e temos que saber lidar com todas essas questões. O futebol, para mim, é tudo. Sem o futebol eu não seria quem sou hoje. Sou um pessoa melhor graças a esse esporte ”, afirma.

É assim que o 5-Soccer é jogado para cegos

O Futebol-5 é praticado por atletas totalmente cegos (classe B1) que usam uma bola de som, em uma combinação contínua de velocidade e habilidade.

Cada equipe é formada por quatro jogadores de campo, todos cegos e cobertos por máscara, além de um goleiro sem deficiência. A área de jogo é totalmente cercada por um muro ou cerca, de forma que não haja limites. A regra do impedimento também não se aplica, então a ação dificilmente para. As partidas consistem em dois tempos de 25 minutos, mais dez minutos de descanso entre os dois.

Para evitar que jogadores que têm algum descanso visual mínimo possam se beneficiar, todos devem usar uma máscara que cubra completamente seus olhos. Além disso, o público deve permanecer em silêncio durante todo o jogo, para permitir que ambas as equipes ouçam o som da bola. Gritar e bater palmas só é permitido quando um gol é marcado.

Os primeiros Jogos Paralímpicos em que o futebol-5 masculino foi disputado foram os de Atenas 2004.

Fonte: marca.com 04/09/2021

Postar um comentário