História do Descobrimento do Brasil

Afrânio Peixoto

História do Brasil Afrânio Peixoto (1876-1947) Fonte digital Digitalização da 2ª edição em papel Biblioteca do Espírito Moderno - Série 3.ª - História e Biografia Cia. Editora Nacional - 1944
Transcrição para eBook eBooksBrasil © 2008 Afrânio Peixoto USO NÃO COMERCIAL * VEDADO USO COMERCIAL

Suceda o que suceder, o Brasil será sempre uma herança de Portugal. ROBERT SOUTHEY — “História do Brasil”. Londres, 1819, v. 3.º, c. XLIV, págs. 697.



O Autor
  Afrânio Peixoto (Júlio A. P.), médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 14 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de janeiro de 1947. Eleito em 7 de maio de 1910 para a Cadeira n. 7, na sucessão de Euclides da Cunha, foi recebido em 14 de agosto de 1911, pelo acadêmico Araripe Júnior. Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia, cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); deputado federal pela Bahia (1924-1930); professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). No magistério, chegou a reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se. A sua estréia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, de Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplar existente na Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Em 1906, submeteu-se às provas do concurso em que ganharia as cadeiras de Medicina Legal e Higiene. Quando da morte de Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem examinou o corpo do escritor assassinado e assinou o laudo respectivo. Ao vir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou a escrever o romance A esfinge, o que fez em três meses. O Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, com o então tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa, assuntos literários e artísticos, viagens ao exterior. Em certo momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessa páginas, os aspectos da força telúrica com que impregnou a sua obra novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e Bugrinha (1922), que foi violentamente criticada pelos modernistas, é importante a análise psicológica das personagens femininas. Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto. Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à Comissão de Redação da Revista (1911-1920); à Comissão de Bibliografia (1918) e à Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição da França no Centenário da Independência do Brasil. Ainda em 1923, deu início às publicações da Academia, numa coleção que, em sua homenagem, desde 1931, tem o nome de Coleção Afrânio Peixoto. Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu.” Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições. Principais obras: Rosa mística, drama (1900); Lufada sinistra, novela (1900); A esfinge, romance (1911); Maria Bonita, romance (1914); Minha terra e minha gente, história (1915); Poeira da estrada, crítica (1918); Trovas brasileiras (1919); José Bonifácio, o velho e o moço, biografia (1920); Fruta do mato, romance (1920); Castro Alves, o poeta e o poema (1922); Bugrinha, romance (1922); Dicionário dos Lusíadas, filologia (1924); Camões e o Brasil, crítica (1926); Arte poética, ensaio (1925); As razões do coração, romance (1925); Uma mulher como as outras, romance (1928); História da literatura brasileira (1931); Panorama da literatura brasileira (1940); Pepitas, ensaio (1942); Obras completas (1942); Obras literárias, ed. Jackson, 25 vols. (1944); Romances completos (1962). Além dessas, publicou obras de outros autores e numerosos livros de medicina, história, discursos, prefácios. Fonte: ABL
I Antecedentes
CIVILIZAÇÃO MEDITERRÂNEA. — AS ESPECIARIAS. — PORTUGAL. — AS NAVEGAÇÕES. — COMÉRCIO. — AS ÍNDIAS. — O BRASIL. ! A comunicação entre homens é a causa primeira da civilização: nestes contactos, a convivência multiplica ações e reações psicológicas, que se tornam experiências e colaborações inovadoras e afinam o homem em sentimento, inteligência, vontade, como fazem iniciativas, empresas, progresso social. O maior incentivo da comunicação é o interesse, todos os interesses, dos mais imediatos e prementes, aos mais transcendentes e espirituais. O gozo comum das utilidades, depois a fruição pessoal delas, a troca entre posses, finalmente o tráfico — trabalho, indústria, comércio, já civilizado ou intercâmbio. Montesquieu pôde, pois, dizer: “A história do comércio é a história da comunicação dos povos”. Antes de um domínio, de qualquer maneira social, os Gregos disseminados pela bacia do Mediterrâneo, entre si comunicantes, criaram mais do que a Grécia, — Creta, Micenas, Argos, Esparta, Tebas, Atenas... efêmeras expressões políticas — fatos apenas mais impressionantes — criaram o Helenismo, disperso por todo o Mediterrâneo, fazendo ao mundo de então, e ainda ao de hoje, uma incomparável irradiação de poder, indústria, espírito e moral, que conquistaram a terra. E, do Mediterrâneo, essa cultura transbordou e penetrou em continentes longínquos: antes de Alexandre chegar às Índias, traficantes gregos tinham chegado à China. Antes de os Cruzados nórdicos virem civilizar-se no Mediterrâneo, ao contacto do Império Cristão do Oriente, já Fenícios, Cartagineses, Gregos, Romanos tinham devassado o Mar do Norte, até a última Tule. O périplo de Hamon é meio circuito da África. Ofir ou Sofira, na Bíblia, é Sofala, na Índia. A comunicação fora acendendo pequenos focos de cultura, dispensando o prestígio político, tardio e ineficiente para tanto. A Europa conheceu o Oriente, que lhe veio, penosamente, pelas caravanas, da Índia ao Mediterrâneo.  
As Especiarias
Conheceu a Europa, assim, as especiarias dos trópicos. Esse supérfluo tornou-se necessário. O clima ajudara a religião a vestir os homens e, demais, a evitar os banhos — Michelet pôde dizer, da Idade-Média: nem um banho, em mil anos! — E, no corpo não lavado e na roupa não mudada — a roupa branca interna, a camisa, começa a aparecer só depois de 1330 — as excreções fazem repugnância, incomodidade, repulsão. Os perfumes tropicais, sândalo, mirra, benjoim, incenso, misturas, essências, cânfora, tinturas, foram um alívio e um deleite. Com as essências e os perfumes, o suntuário que agrada à vista, tapetes, sedas, cetins, telas, damascos, jóias, porcelanas, mil objetos exóticos invadiram a Europa e tudo era “especiaria”. Mas, as dominantes, eram as do gosto. A Europa não aprendera ainda a sucessão sazonal das colheitas, nem tinha como guardar alimento, da estação calmosa para a estação fria. Por faltar forragem aos bovídeos, durante o inverno, eram abatidos, os mais deles, em Novembro, aos primeiros frios, em todo o Norte, e salgada a carne para o consumo dos meses seguintes. Não havia a batata, que é americana, nem os legumes já eram do hábito da mesa, nem a estação os permitiria. O regime alimentar era, pois, severo e ingrato: trigo e carne salgada. O tempero, as especiarias tropicais, pimenta, cravo, canela, gengibre, noz moscada... foram bênçãos do céu... festa do apetite e alegria do gosto. Dado o hábito, tal suntuário transforma-se na mais exigente necessidade. O parco mel de abelhas teve o sucedâneo milagroso do açúcar, a princípio nas boticas, de tão precioso, depois nas mercearias. O chá, o café, o cacau, como fora o álcool, viriam a ser delícias desse gosto, tanto e tão severamente tratado durante séculos. Por isso, o comércio de especiarias do Oriente, das Índias, pelos desertos da Arábia e da Síria até o Mediterrâneo, ou por via de cabotagem, pelo Golfo Pérsico, Mar Vermelho, até o Istmo de Suez, para o mesmo Mediterrâneo, com escalas medrosas, comércio em que viriam a primar Gênova e Veneza, destribuidoras das especiarias ao resto da Europa, por Nurembergue, Lião, Bruges... aos portos, e ao interior da Europa medieval, esse comércio, digo, era questão tão vital à humanidade, como é hoje o senhorio dos mares pelo interesse insular da Inglaterra, que ora permite ao mundo intercomunicar-se. Antes, o enriquecimento que esse tráfico trouxera às cidades italianas, provocara o surto de cultura que é das causas do Renascimento, por isso mesmo ajudando o estímulo à competição. Quando os Turcos tomaram Constantinopla (1453), quando suas armadas dominaram o Mediterrâneo, quando Veneza se pôs em guerra contra a Turquia, já seria a necessidade: o comércio no Mediterrâneo entrou em decadência e a Europa insistiu noutro caminho, outros caminhos empreendera para conseguir as especiarias que foram o incentivo das Navegações e da Revelação. “E, se mais mundo houvera, lá chegara”. (Lus., VII, 14). Haviam as Cruzadas ensinado aos Nórdicos o caminho marítimo, até o fundo do Mediterrâneo: depois dos périplos piedosos, vieram os lucrativos tráficos marítimos. As conquistas religiosas haviam aproximado o Oriente de entrepostos, Rodes, Chipre, Beirute, Grécia, Egito, antes de Pisa, Gênova, finalmente Veneza, dominante, onde todo o norte da Europa tinha armazéns, feitores e representações. Comprava-se e vendia-se e a mercadoria caminhava via terrestre ou marítima. Além dos produtos exóticos, as indústrias regionais: vidros, rendas, drogas farmacêuticas, e com isso o tráfico de escravos, negros, muçulmanos, dálmatas. A moeda de ouro e prata, o primeiro banco, que datava de 1141, uma frota de 3 a 4.000 navios, governo de plutocratas servindo ao lucro individual e coletivo, tinham feito, de Veneza, a cidade cosmopolita, monopolizadora do comércio das especiarias. Isto despertaria emulação, incentivo e concorrência: os Turcos no Mediterrâneo iriam ajudá-las. 
Portugal
Além do Mediterrâneo, nas terras mais ocidentais da Europa, estava Portugal. Desprendido de Leão, o pequeno condado por Afonso VI doado a sua filha e genro, Dona Teresa e Dom Henrique, iria afirmar-se autônomo sob o filho deles, Dom Afonso Henriques, o primeiro rei, que já em 1137 bate Afonso VII na batalha de Cerneja: está Portugal independente e há-de crescer para o Sul... de Guimarães a Leiria, a Lisboa. Os Cruzados, de passagem (1147), ajudam-no a tomar Lisboa ao Infiel, como ajudaram Dom Sancho I a tomar Silves, a outra capital árabe do sul (1189). Costas a Espanha, a elevada meseta pára aí, e Portugal já desce vertentes, por onde correm o Minho, o Vouga, o Douro, o Tejo, o Guadiana, até o mar. Essa descida da serra, através de degraus e socalcos, que produzem pão e vinho e azeite, e fazem a Monarquia agrária dos reis Afonsinos, irá dar, ao apelo do Atlântico, em face, provocando pescadores, ensinando a cabotagem, com a experiência e a aventura, a navegação do alto mar. Essa navegação de cabotagem, as colônias fenícias, cartaginesas, helenas — Lisboa pretende vir de Ulisses e Viana de Diómedes... — romanas, tiveram experiência, à vista, do longo curso dos mares do Norte e do Sul, nesses Cruzados. Já no fim do século XII traficantes portugueses são denunciados em Marselha e Mompilher [=Montpellier-NE]. Em 1194 naufraga no Mar do Norte, nas costas da Holanda, um barco português, carregado de mercadoria. Em 1213 João-sem-terra já autoriza mercadores portugueses a levarem a mercância a seus domínios. A escritura de concórdia de 1238, de Sancho II, o decreto aos habitantes do norte (Toti populo a minio usque ad daurium) de Afonso III, em 1253, o foral de Gaia em 1255, o de Viana em 1258, demonstraram que no inter-século XII e XIII havia tráfico useiro de comércio, com França, Flandres, Holanda e Inglaterra. Em 1293 negociantes de Lisboa fundam em Flandres uma bolsa de comércio para auxílio ao tráfico com os países setentrionais. Já Dom Fernando, em 1380, protege a marinha mercante, de naus de mais de cem toneladas, isentas de direitos sobre madeira, ferro e qualquer importação, e até de impostos “em fintas e talhas nem em sisas” e para proteger os armadores e marítimos fundara a Companhia das Naus (1). Em 1383 têm negociantes portugueses casa própria em Bruges, onde se reuniam, antes de trasladada a Antuérpia. Se o comércio pacífico olhou o norte, o do sul exigiu a conquista. Quando Afonso III põe fora do Algarve os últimos Mouros (1249), surge a sugestão de África, do outro Algarve africano — “Alharb” é o poente ou ocidente, donde também, para os Portugueses, como para os Mouros, “Algarves d’aquém e d’além mar”, como um todo indivisível. — Este “Algarve d’além mar em África” é um apelo. Dom Deniz [=Dom Diniz=Dom Dinis NT] ajuda a fundar, definitivamente, em Coimbra, o “estudo geral” ou Universidade, começado em 1290: é um farol espiritual, de endereço atlântico, no limite ocidental da Europa: símbolo dessa missão espiritual que ia caber a Portugal, de primeira mão — derramar a cultura mediterrânea no mundo, pelas Navegações. No mesmo sentido importará marinheiros genoveses para pilotos e mestres de marinha militar: o Almirante Micer Manuel Peçagno, de Gênova, sucede, em 1317, ao almirante-mor lusitano e terá sempre com ele “vynte homens de Genua sabedores de mar”. (Daí esses Dória, Spinola, Cavalcanti... que passam a ser nomes nossos). É a experiência do Mediterrâneo, invocada e transplantada. O pontífice Bento XII, na bula Gaudemus, testifica que ele formava “dentro de pouco tempo marinheiros tão ousados e dextros como dificilmente se poderiam encontrar noutra parte”. Os pinhais para conter as dunas, que fizera plantar em Leiria, irão servir de sementeira às naus, assim previstas por Dom Deniz. Como quer que seja, já em 1336, sob Afonso IV, os Portugueses redescobrem as Canárias. Se a dinastia agrária dos Afonsinos já cede aos apelos marítimos, a de Aviz far-se-á ao mar e, daí, além do tráfico, as conquistas. Com Dom João I, satisfazendo as ambições belicosas da nobreza e de luxo da burguesia, Portugal vai a África e toma Ceuta (1415): era Infiel a bater, mas o Infiel não interessa em Espanha, declinando Portugal do auxílio invocado para o expelir de Granada: Ceuta, tomada, impede a Espanha de a tomar, e Ceuta é, em Marrocos, centro de caravanas, celeiro de cereais e base militar para proteger a navegação contra os ninhos de piratas marroquinos. Dom Henrique, armado cavaleiro na mesquita muçulmana feita templo cristão, vê, ouve, pondera, para resolver. O norte de África era sonho, até o Egito, até o lendário Preste João das Índias, suposto cristão e portanto aliado natural contra o Infiel e seu comércio, que dominavam o Mediterrâneo... As especiarias pelo norte de África seriam possibilidade. Chegou-se e entrar em conversações. De 1402 a 1425 viriam seis embaixadas à Europa e cinco outras no sentido contrário, foram à Etiópia: a de 52 foi mesmo endereçada a Dom Henrique(2). Em 87 Dom João II dará o último arranco, mandando Pero de Covilhã e Afonso de Paiva em busca do Preste. A boa política exige realidades imediatas.
As Navegações 
Mas Ceuta foi decepção: posto isolado em meio hostil e, ao demais, agora trocada por Túnis, pelas caravanas que vêm do Soldão com especiarias, era entretanto, como disse Dom Pedro, um dos “inclitos infantes”: “sumidouro de gente, de armas e de dinheiro”. O outro caminho, o das navegações, daria mais resultados. Dom Henrique, com as rendas do seu mestrado de Cristo, ia dar-se a elas, herdado o impulso do Pai. Ao Mediterrâneo chegara a galé, com o remo, lenta mas segura na manobra, pois o objetivo principal era a guerra. O Atlântico ia à caravela, desde 1440, de trinta metros de comprido, alta para fender as ondas, arqueação para gente, mantimentos e carga, a seis milhas ou dez quilômetros à hora, graças ao vento nas velas. “Os Portugueses inventaram o duplo aparelho: velas quadradas para o vento de popa, velas latinas para o barlavento”(3): com isto, o invento português foi este — a navegação ao largo: Colombo, que a fizera, foi aluno, e até genro, de navegante português. Depois, outros aprenderam. Estabelecendo-se entre Sagres e S. Vicente, onde recebia os navegantes e pilotos e conversava com astrônomos e cosmógrafos, preparando seus planos de contornar a África, estavam aí simbolizados os dois endereços das Navegações: o continente negro a costear antes das Índias, o outro para o desconhecido, que será a América. E a realidade vai-se substituindo à vontade, que foi sonho. Porto-Santo e Madeira conhecidas e ocupadas em 14-23-25, os Açores em 1432, o Cabo Bojador é transposto em 34. No ano seguinte atinge-se a ponta da Galé, a 22º12’ lat. N. Em 41 Antão Gonçalves vai até aí, ao Rio de Oiro, já para carregar azeite e peles de lobo-marinho e tomar informações “das Índias e terra de Preste Joham e seer podesse” (Zurara, Crônica... da Guiné, ed. 1854, cap. XVI, p. 94). Começara a chegar ao reino mercância africana: peles, malagueta (a concorrente da pimenta indiana)(5), marfim, ouro em pó, principalmente escravos. Lançarote de Lagos traz o primeiro carregamento deles, 235 peças, das quais 46, ou o quinto, a vintena, para o Infante. Até 48, quando acaba a Crônica de Zurara, são 927 negros e 125 para o Infante. Os negros invadem Portugal e passam a Espanha, negociados por traficantes, nobres, príncipes, até por el-Rei D. Afonso V. Clenardo virá a dizer em 1535: “Os escravos pululam por toda parte: estou em crer que em Lisboa são mais que os portugueses de condição livre”. (Cf. Gonçalves Cerejeira, Clenardo, Coimbra, 1918, t. II, p. 14-5, do apêndice). Não é novidade, pois já dissera Garcia de Rezende na Miscelânea: “Vemos no reino meter tantos cativos, crescer e irem-se os naturais, que se assim for, serão mais eles que nós, a meu ver”. Mas, em 43, alcançava-se a Senegâmbia, passava-se o Senegal, chegava-se à terra dos Guinéus, atingindo o Cabo Verde, a 14º,4’ lat. N. Em 44 era organizada a Companhia de Lagos para exploração comercial da costa, arrendado o monopólio: ainda hoje a tradição mostra, aí, o mercado dos escravos: a Casa de Guiné foi em Lagos. Em 47 dobra-se o Cabo dos Mastros. Em 60 exploram-se as ilhas de Cabo Verde. Quando morre o Infante de Sagres, nesse ano de 1460, do Cabo Não ao Cabo Mesurado, 1.700 milhas geográficas do périplo africano estavam reveladas. O Infante não era um místico, como o romantismo quis fazer dele: era um estadista, um político, com o trato das realidades: fomentou a cultura do campo nas terras do seu Mestrado de Cristo; desenvolveu e criou indústrias novas, a pesca, o coral, a tinturaria, a saboaria, a moagem; traficou com peles, malagueta, escravos. (Cf. Jaime Cortesão, História de Portugal, ed. Damião Peres, Barcelos, 1931, t. III, p. 363). Mandou vir a cana do açúcar da Sicília para a Madeira, onde fez plantar canaviais, fundou um lagar ou engenho, importou artífices e técnicos, deu privilégio de fabrico (1452), reservando o terço da produção para o seu erário: o primeiro doce foi para presente a príncipes e nobres. Depois chegou-se a prover Lisboa de umas 120.000 arrobas por ano, para o reino e o restante para Flandres, a Provença, Sul de França, Veneza. Também fez vir de Chipre a vide doce e seca, que dá o vinho quente e generoso: dois séculos mais, o vinho Madeira terá universal renome e substituirá, na pauta, o açúcar, emigrante para a América. Açúcar, vinho generoso, malagueta, peles, ouro, escravos eram, antes das Índias, o suprimento africano das especiarias: o Atlântico já substituindo o Mediterrâneo. Depois de Dom Henrique as navegações passam à Coroa, intensificadas por Dom João II, escoado o interregno de Afonso V, cujas proezas em África — Alcácer-Ceguer, Tânger, Arzila — são defensivas contra os ninhos de pirataria marroquina. D. João II, vivendo ainda seu pai, explora, por sua conta, — como o pai explorara escravos, a vender para Espanha, — o comércio e a pesca na Guiné, proibida a concorrência. Em 81 dará o apoio militar a esse comércio com o Castelo de S. Jorge da Mina, fortaleza que era, a um tempo, também armazém ou depósito de mercadoria, a trocar, vender e comprar. El-Rei teve até navios a frete. “O dono da nação era agora comerciante, como tinha sido em outros tempos lavrador”(6). Mas as navegações continuaram. Em 71 é a Costa de Malagueta, a Mina do Oiro, no Rio do Lago, chegam do além do Cabo das Palmas, feito de João de Santarém e Pedro Escobar. Em 82 chega-se ao Zaire, onde já se chanta padrão de pedra; em 84, pelo mesmo Diogo Cão, ultrapassa-se o Equador, que, em 85, fica atrás, no Cabo Negro alcançado. O arranco definitivo foi, porém, a expedição de Bartolomeu Dias, para vingar, em 88, o Cabo que chamou Tormentoso, porque o dobrou em meio de tempestade, e, só de retorno, teve a noção do triunfo. Atingira e passara a meta. Dom João II mudou tal nome em cabo de Boa Esperança,(7) “pela que ele prometia — diz o cronista João de Barros — deste descobrimento da Índia, tão esperada e por tantos anos requerida”. Acabada a África, a caminho para a Índia! Tanta era a obsessão desse caminho, que não se quis ver mais. Cristóvão Colombo, que habitara a Madeira, casado com portuguesa, filha do navegador Bartolomeu Perestrelo, concebera a idéia de chegar à Índia pelo Ocidente. Andou na Corte de Dom João II “ladrando” o seu requerimento, diz o cronista João de Barros, “vaidade” disse, dele e seu plano, um conselheiro d’el-Rei, o bispo Dom Diogo Ortiz. Foi-se a Castela, onde esteve anos, combatido e motejado, até que a piedade de Isabel a Católica lhe deu as jóias empenhadas, para três caravelas. Em 1492 chegava à América, e lá tornaria outras vezes, sem dissuadir-se que não havia, por aí, caminho para as Índias. Não importa: é a América, não se sabe o quê, mas alguma coisa grande será. Será mesmo pretexto para um ajuste de contas, dos irmãos contrários, Portugal e Espanha. Um papa espanhol, Alexandre VI (Bórgia), aproveita o momento para dividir o mundo, pólo a pólo, em duas bandas, entre Espanha e Portugal: a Bula Inter Coetera é de 4 de Maio de 1493. O Tratado de Tordesilhas, em que as duas partes limitam estas suas posses, assim doadas, é de 1494. Portugal prosseguiria na sua direção, não mais com Dom João II, que escolhera Vasco da Gama para a empresa dos Lusíadas, porque morre, mas recolherá Dom Manuel a glória de chegar às Índias, em 1497. O Infiel pode dominar o Mediterrâneo: as especiarias têm outro caminho, finalmente, para chegar à Europa. O monopólio era de Veneza: passa a Lisboa(8). A pimenta comprada na Índia a três cruzados o quintal, chegará no Egito a oitenta, e muito mais em Veneza, pois vai escasseando tanto, que as expedições tornam vazias, sem um fardo... Depois de Vasco da Gama custará menos de trinta cruzados, em Lisboa, e haverá a que se queira...
Comércio
Essa pimenta, rainha das especiarias, não é apenas um tempero, mas um símbolo: são as Navegações, as Índias, Portugal que abandona a Europa atrás dela(9), e encontra o mundo em caminho... É o que diz o Soldado Prático Português, de um competente contemporâneo, Diogo do Couto: “o descobrimento da Índia todo foi fundado sobre a pimenta” (Cap. XXIII, p. 97), “a cousa da Índia em que mais se põe os olhos” (Cap. XVIII, p. 77). Por isso o pio Gaspar Corrêa diz dela, com propriedade, “lume dos olhos de Portugal” (Lendas da Índia, t. II, L. II, Cap. I, p. 7) e o que é mais, atribui o pensamento a el-Rei e a Afonso de Albuquerque. Todo o reino, do rei ao menor súdito, sonha com a pimenta ou a riqueza. Único ou “todo” será exagero: negá-lo, seria esconder a evidência. A “Casa da Guiné” fora em Lagos; a “Casa da Guiné e da Mina” já era em Lisboa; a “Casa da Índia” vai suceder às precursoras, e é principalmente a pimenta sucedendo aos escravos, ao ouro, às peles, à malagueta, à pimenta africana. A Casa da Índia não era apenas um entreposto, um armazém, era um ministério, vários ministérios. A princípio nobres e comerciantes e a tripulação dos navios eram sócios, depois o Estado, na regra, chamou tudo a si. Os feitores ou feitorias no Oriente compravam a especiaria, com dinheiro e mercadoria que iam do reino, armazenavam-na e, nas armadas, despachavam a mercância, em fardos do peso de quatro quintais, além das “quintaladas” da tripulação. Em Lisboa descarregava na Casa da Índia, armazém, alfândega e bolsa que negociava por conta própria e dos sócios da empresa, o Estado ou el-Rei, os mercadores, os donos das quintaladas. Vendia pelo preço que fixava, fixando a quantidade, para não desvalorizar o produto. As praças de Flandres e Holanda, Alemanha ou Itália tinham seus agentes, de grandes firmas, Fuggers, Welser, Hoschstetter, Affaitati, Gualterotti, Frescobaldi... que possuíam o privilégio da distribuição. À Casa da Índia convergia tudo; dela é que tudo saía. O movimento por isso era tal que, diz Damião de Góes, houve ocasiões em que as partes tiveram de volver nos dias seguintes, por não haver possibilidade de contar dinheiro a pagar: fato inaudito — não receber, por falta de tempo... O dinheiro, intermediário universal, foi português: se a Guiné daria o nome dos “guinéus” pelo seu ouro, o cruzado português foi, como a libra ou o dólar de hoje em dia, moeda comum. A bolsa de Desdêmona, no Othelo de Shakespeare, estava cheia de cruzados: my purse full of cruzadoes (Othelo, III, 4). O rei era o primeiro negociante(10). Os fidalgos imitam o soberano. Os da Casa de Bragança foram dos mais diligentes e ambiciosos. “A Corte era verdadeiramente uma grande casa de negócio”(11). Não havia desdouro nisso, bem pelo contrário. Não foi só pela honra, que o comando das armadas e das naus era dado a homens nobres, que desconheciam a navegação. Quando um rei quer pôr cobro a isso, atendendo aos desastres que esses imperitos trazem à marinha, os fidalgos protestam e dá-lhes razão o Conselho Ultramarino(12). E não comandam apenas armadas e naus: são armadores de navios de comércio e transportes. Na armada que descobre o Brasil, comandada pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral, “marinheiro de primeira viagem”, dois dos treze navios são de nobres comerciantes, um do Conde de Porto Alegre, aio de el-Rei, o outro de Dom Álvaro, filho do segundo duque de Bragança, sócio do mercador Bartolomeu Marchioni(13). Na armada de Tristão da Cunha, uma das naus era propriedade do Capitão-mor(14). Nas contas da Casa da Índia figura a nobreza e não se exclui nem o ilustríssimo Afonso de Albuquerque que, só na frota de 1509, tem mercadoria de mais de um milhão de reais. Um comandante de armada, Dom Luiz de Almeida, compra o posto ao Conde da Torre por cinco mil cruzados, e a Lopo Soares, nomeado Governador da Índia, propõe Dom Manuel desistir do posto por vinte mil cruzados, ou quatro mil contos de hoje, que o ambicioso recusou: não seria só pela honra. O paço do rei, da família real, da corte, era junto à casa de negócio: “como qualquer morador da escola antiga, Dom Manuel estabeleceu a residência no local do seu comércio”(15). Onde hoje, no Terreiro do Paço, em Lisboa, à direita, olhando o rio, estão vários ministérios, estavam os Paços da Ribeira e seguia-se-lhes a Casa da Índia. A tanto chega “o gosto da cobiça”, verberada pelo Épico (Lusíadas, X, 145), como antes Garcia de Rezende, na Miscelânea, fizera a esse “muito negociar”, que, em 1538, quando Dom João III pensa em mandar, à Índia, uma armada de quarenta naus para se opor à dos Turcos, em preparativos para expelirem os Portugueses de seus domínios orientais, muitos fidalgos que usufruiam comendas se furtaram e aos filhos. “Alegavam que o descobrimento se fizera para fins de trato e comércio e não, como as conquistas de África, de guerrear os infiéis”(16). À insistência do soberano apelam para a Mesa da Consciência que lhes deu razão(17). Aliás a política dos homens e dos Estados sempre foi feita de realidades: a interpretação, à posteriori, é que é tendenciosa, falsificando, com as idéias, os fatos. Na época ninguém cuidou em dissimular isto, de que não há vergonha. Dom Manuel, dando conta aos reis de Espanha da viagem do Gama, diz: “da dita especearya e pedrarya nam trouxeram logo tanta soma, como poderam, por nam levarem pera ello aquella mercadorya, nem tanta, como convynha”. (Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, 1892, p. 96). As expedições seguintes levarão mais dinheiro e trarão mercadoria que farte. Vasco da Gama e Pedro Álvares levavam intuitos pacíficos e muita recomendação para isso(18). Foram interesses opostos, de Venezianos, de traficantes orientais na frente deles, que deram ocasião às insídias, represálias, desatinos, de parte a parte, que se descrevem nos Lusíadas e nas Crônicas. Isto é que dá lugar a que os Portugueses, com os Dom Francisco de Almeida, Duarte Pacheco Pereira, principalmente Afonso de Albuquerque... fundem, sobre a violência e a força militar, o Império português do Oriente, consoante o que disse o Épico: “Quem não quer comércio busca a guerra”. (Lus., VIII, XCII). Entenda-se, não o querem com os Portugueses, porque o têm tratado com os Venezianos: ainda hoje é a competição do interesse que decide, por fim, a guerreira; o imperialismo militar é o nome “patriótico” da irredutível economia... A mercadoria indiana — canela, pimenta, cravo, gengibre, noz moscada, sândalo, benjoim, cânfora, perfumes, porcelanas, pedrarias, sedas — ia a Meca, ao Cairo e daí ao Mediterrâneo. Foi isto que os Portugueses impediram, pelo prestígio da força, baldados os meios pacíficos. A fé e a ciência(19) andaram e serviram ao propósito das Navegações, mas o fito delas foi a Índia. Dom Manuel, rematando cronistas e historiadores, resume: “entençom e desejo... de se aver de descobrir e achar a Ymdya” (Alguns documentos. .. da Torre do Tombo, p. 127-8). Por quê? Por suprir o Mediterrâneo, então vedado, ou difícil, e, por isso, caríssimo. Para quê? Para obter as especiarias, mais vantajosamente, por outro caminho(20). O privilégio muda de posse: eram Venezianos, são agora Portugueses; era Veneza o empório do Oriente, passa a ser Lisboa... É o que diz esse mesmo Dom Manuel, intérprete fidedigno de Portugal, no título pomposo que vem a tomar: “Senhor da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”(21). E ninguém toma títulos senão os que enobrecem: “titulos muyto famosos”, disse Castanheda (Dp. cit. 1. I, Cap. XXIX, p. 71); “tam honroso quãto ho he ha mesma conquista”, disse Damião de Góes (Op. cit., p. I, fl. 45). As conseqüências morais ou ideais da ação de Portugal no Oriente não são por isso menos consideráveis: atacando os Infiéis no Oriente chama para as Índias as possibilidades muçulmanas, que já não podem investir contra a Europa e mesmo se enfraquecem no Mediterrâneo. Já em 1571, com a batalha de Lepanto, eles entram, esses Turcos, em decadência, nesse Mediterrâneo(22). Apesar do monopólio, as navegações e o comércio do Oriente não interessaram só a Portugal, senão a toda a Europa(23), que mais se enriqueceu do que nós, ao menos a Flandres, a Inglaterra, a Holanda, a quem dávamos ouro e nos forneciam as manufaturas a traficar com a pimenta. Portugal pelas especiarias foi à Índia, e, com as navegações, conheceu mundos novos, estimulando e dando benefícios ao mundo antigo. O Brasil foi achado, no meio do caminho...
Reis de Portugal
(Desde o começo das conquistas e navegações):
 Dom João I (1385-1423). Dom Duarte (1423-1438): irmão, o Infante Dom Henrique (1415-1460). Regência do Infante D. Pedro (1440-1446). Dom Afonso V (1446-1481). Dom João II (1481-1495). Dom Manuel (1495-1521).  
1415 — Dom João I toma Ceuta. 1423 — Bartolomeu Perestrelo vai a Porto-Santo. 1425 — João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira vão à Madeira. 1427 — Achamento dos Açores, pelo piloto Diogo de Sunis (?) ou Gonçalo Velho Cabral. 1429 — Gil Eanes vai ao Cabo Bojador. 1432 — Gonçalo Velho Cabral vai aos Açores (Santa Maria). 1434 — Gil Eanes dobra o Cabo Bojador e vai até o Rio do Ouro. 1435 — Afonso Gonçalves Baldaia vai até a Ponta da Galé. 1439 — Sete ilhas dos Açores já conhecidas. 1449 — Dom Henrique manda lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores. 1440 — Antão Gonçalves e Nuno Tristão no Porto do Cavalheiro, Nuno Tristão vai até o Cabo Branco. 1443 — Nuno Tristão passa o Cabo Branco e vai à ilha de Gete. 1444 — Denis Dias descobre o Cabo Verde. 1445 — Nuno Tristão chega a Senegâmbia. 1447 — Nuno Tristão e Álvaro Fernandes vão até o Rio Tabete. 1449 — Já descobertas nove ilhas do Arquipélago dos Açores. 1453 — Todo o arquipélago dos Açores é reconhecido. 1455 — Aloísio Cadamosto vai até à costa de Gâmbia, na caravela de Vicente Dias. 1457 — Cadamosto e Antônio de Noli vão até o Cabo Roxo na Guiné e descobrem cinco das ilhas de Cabo Verde (1460). 1460 — 61 — Pedro de Sintra atinge a Serra Leoa e vai até o Cabo Mesurado. 1461 — 2 — Diogo Afonso descobre as outras ilhas do Arquipélago de Cabo Verde. 1471 — João de Santarém e Pedro Escobar descobrem toda a Costa da Malagueta, a Mina de Ouro, chegando além do Cabo dos Palmas, no Rio do Lago. 1469 — 71 — Descobrimento das ilhas do golfo da Guiné: Formosa, Fernando Pó, Corisco, Ano Bom, São Tomé e Príncipe e da Costa do Gabão. 1481 — Diogo de Azambuja levanta a fortaleza de São Jorge da Mina. 1484 — 5 — Diogo Cão vai até às bocas do Congo e ao Cabo Negro. 1486 — João Afonso descobre o reino de Benim. 1488 — Bartolomeu Dias dobra o Cabo de Boa Esperança. 1497 — Vasco da Gama vai até às Índias. 1500 — Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil.

II Revelação
A SEGUNDA ARMADA: O BRASIL. — A DATA. — O DESCOBRIMENTO. — O NOME. — A TERRA. — A GENTE. — AINDA CABRAL. — PRECURSORES DE CABRAL
A Segunda Arma: O Brasil
Partira Vasco da Gama a 8 de Julho de 1497, com três naus, São Gabriel, São Rafael, Bérrio e uma barcaça de mantimentos: depois de mil trabalhos e doenças, tornou, destroçado, em começo de Setembro de 1499, apenas com dois navios e um terço da gente. “Avedo dous annos & dous meses q dali partira (de Lisboa), com cento & corenta & oyto homes, de que não tornarão mais que cincoenta & cinco & ainda forão muytos para os immensos trabalhos que passarão, de bravas tormetas & terríveis doenças... (Castanheda, História da Índia, 1. I, Cap. XXIX). “Os Lusíadas” foram 148, dos quais morreram de escorbuto e outras misérias 93... Mas o “feito nunca feito” (Lus., VIII, 71) estava realizado, e conhecido, e percorrido, o caminho das Índias. Era, agora, aproveitá-lo. Foi o que imediatamente empreendeu Dom Manuel. Apresta-se logo a segunda armada, para a qual Vasco da Gama indica um capitão, outro fidalgo como ele(1). É Pedro Álvares Cabral, de Belmonte (pedraluarjz de guouuea, diz a “Carta da Capitanya Moor e poderes”(2), que recebe instruções de el-Rei e conselhos do Gama. São dez naus e três navios pequenos, “mil e quinhentos homens”, diz Castanheda (op. cit., 1. I, cap. XXX, p. 72) comandados por Pedralvares, a Capitânia; por Sancho de Tovar, soto-capitão ou imediato; por Pedro de Ataíde; por Nuno Leitão da Cunha; por Nicolau Coelho, que fora companheiro de Vasco da Gama; por Simão de Miranda; por Vasco de Ataíde; por Bartolomeu Dias, que dobrara o Cabo de Boa-Esperança; por seu irmão Pero Dias, também da empresa d’“Os Lusíadas”; por Luiz Pires; por Aires Gomes da Silva; por Simão de Pina e por Gaspar de Lemos. Bartolomeu Dias e Nicolau Coelho serão a experiência; mas há um passageiro de categoria, Duarte Pacheco Pereira, que virá Camões a chamar “o Aquiles Lusitano”, autor do Esmeraldus de Situ Orbis, que negociara o Tratado de Tordesilhas, privava com el-Rei, conselheiro, cosmógrafo, marinheiro e, ao demais, herói: viaja na nau. S. Pedro, do comando de Pedro de Ataíde(3). O comércio colabora: duas naus são de fidalgos, o Conde de Porto Alegre, aio de el-Rei e Dom Álvaro de Bragança, este associado ao banqueiro Bartolomeu Marchioni, florentino que reside em Lisboa, privado da Corte e com grandes serviços ao Estado: deles é a nau Anunciada(4), do comando de Nuno Leitão da Cunha, a primeira das que tornam a Lisboa. São princípios de Março de 1500. “...a partida de Belém... foi segunda feira IX de Março” (Carta de Pero Vaz, in “Alguns documentos da Torre do Tombo”, cit. p. 108). A 14 “amtre as Canareas, mais perto da Gram Canarea”; a 22 “ouvemos vista das ilhas de Cabo Verde”; a 23 “se perdeo da frota Vaasco d’Atayde com a sua naao, sem hy aver tempo forte, nem contrairo pera poder seer; fez o capitam suas deligençias para o achar a huuas e a outras partes, e non pareceo mais”. (Id.) “...e assy seguimos nosso caminho por este mar de lomgo ataa terça feira d oitavas de pascoa que foram XXI d Abril, que topamos alguuns sygnaaes de tera... os quaaes heram muita camtidade d ervas compridas... e aa quarta feira seguinte pola manhãa topamos aves... e neeste dia, a oras de bespera, ouvemos vista de tera, saber: primeiramente d huum grande monte muy alto e redondo, e doutras terras mais baixas, ao sul dele, e de terra chãa, com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitam pos nome o monte Pascoal e aa tera de Vera Cruz” (Id.). É a certidão de nascimento, lavrada pelo escrivão que ia para Calecut, Pero Vaz de Caminha, em carta a el-Rei, um dos raros documentos que nos restam da empresa: o Brasil foi descoberto a 22 de Abril de 1500, numa quarta-feira...
A Data 
Sem tento, há por aí outras datas. Era vigente o Calendário Juliano. A reforma Gregoriana, de 1582, não retroage os cômputos cronológicos: se retroagisse, mais nove dias, seria a 1.º de Maio. A “invenção da Vera Cruz”, celebrada pela Igreja, é a 3 de Maio. Foi Gaspar Corrêa que confundiu as duas datas: “O capitão pôs o nome de Santa Cruz a esta nova terra, porque a ella chegarão a tres de mayo, dia de Santa Cruz”. (Lendas da Índia, t. I, p. 152). Ora Cabral pusera à terra o nome de “Vera Cruz”, que D. Manuel mudara em “Santa Cruz”: Santa Helena achara essa cruz a 3 de Maio. Pareceu certo. Em 1823 sugerira Lara Ordonhes a Gonçalves Gomide, deputados à Constituinte Brasileira, e o último por carta a José Bonifácio, o dia 3 de Maio para a abertura da assembléia, “por ser o do descobrimento do Brasil”, o que foi aceito. Dissolvida a Constituinte, a Constituição outorgada por D. Pedro I marcou esse dia para a abertura das Câmaras, durante todo o Império, o que continuou na República. (Cf. Miguel de Lemos, in Jornal do Comércio, do Rio, de 27 de Maio de 1899 e Boletim do Apostolado Positivista do Brasil, n.º 13, de 6 de junho de 99). Vem daí. Mas Gaspar Corrêa não tinha documento, e servira-se de ilação. O documento apareceu, em 1817, quando Aires do Casal publicou, na sua Corografia Brasílica, a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-Rei D. Manuel, e que está na Torre do Tombo. Ora o documento diz, precisamente, 22 de Abril de 1500. Os ensaios de conciliação com a reforma gregoriana do calendário, que ocorreu em 1582, não procedem: 1.º, porque Gaspar Corrêa que faleceu entre 1561 e 1583, escrevendo antes, desconhecia a reforma: a sua data é “juliana”; 2.º, porque não retroagiu o cômputo gregoriano para nenhuma data da história universal, antes de 1582; 3.º, porque a reforma gregoriana não recorreu, suprimiu apenas alguns dias do mês de Outubro, seguindo a quinta-feira 4 de outubro, sexta-feira 15 de outubro... para acertar o erro então existente, de dez dias, em 1582; 4.º, porque 22 de abril, mais nove dias, que era a diferença em 1500, dá 1.º de Maio e não 3...; 5.º, porque contando a diferença no fim do século XVI, ou dez dias, dá ainda assim 2 de Maio, e não 3...; 6.º, porque contando a diferença na época de José Bonifácio, começo do século XIX, seriam doze dias, ou 4 de maio e não 3...; 7.º, porque pela “conta de chegar”, de Varnhagen (História Geral, 2.ª ed., 1877), esse descobrimento, (não com a vista, o achado da terra a 22 de Abril, porém a 23, com o “primeiro trato” dos índios) não parece sério e seria então, quando fosse, o descobrimento dos “brasileiros”(5) e não do Brasil; 8.º finalmente porque não se atentou que, além da data precisa “terça-feira d oitavas de pascoa que foram XXI dias d Abril que topamos alguns sygnaes de terra... hos quaes eram muita camtidade de ervas compridas”... “aa quarta feira seguinte pola manhãa topamos aves... e neste dia, a ora de bespora, ouvemos vista de tera”... Portanto, o Brasil foi descoberto a 22 de Abril, quarta-feira, à tarde. Três de Maio foi “domingo” e o Brasil foi descoberto uma “quarta-feira”... Este elemento de identificação, sobre o qual nunca se insistiu devidamente, parece-me irretorquível: aa quarta feira, portanto a 22 de abril... E tanto, que na Relação do Piloto anônimo (outro raro documento da viagem de Cabral, publicado em italiano nos Paesi nuovamente retrouati, de Francesco Montalboddo, 1507, e reproduzido em Ramusio, Delle Navigatione e Viaggi, Veneza, 1554, t. I, f. 132) se lê: “alli XXIII di aprile che fu il mercoredi nella ottava di Pascha hobbe la detta armata vista de una terra di che hebbe grandissimo piacere”. (São os mesmos termos de Cretico, no liv. VI dos Paesi nuovamente retrouati, Vincentia, 1507, com pequenas variantes, o que leva os redatores da Racolta Colombiana, parte III, vol. I, p. 83-4, a escreverem que podem tranqüilamente atribuir a tradução italiana do “Piloto Anônimo” ao Cretico, que fez, de parte da relação, carta sua à Senhoria de Veneza...) No texto citado é a mesma data, 24 de Abril in la octava di Passione. Pode-se dizer: “Piloto-anônimo” ou Cretico “errados”, pois que esse dia 24 de Abril de 1500 foi sexta-feira... e o dia da semana corrige a data do mês, menos fácil de reter de memória. (A correção gregoriana respeitou esta decorrência da semana: se 4 de outubro antecede a 15 de outubro, — supressos os dias do mês, de 5 a 14, — a semana é respeitada e, a quinta-feira, 4, segue-se sexta-feira, 15 de outubro de 1582. Não se recorreu: suprimiram-se 10 dias, no mês; não se tocou na semana). O Brasil foi descoberto uma quarta-feira (concordância de Pero Vaz e do Piloto-Anônimo-Cretico), portanto, a 22 de Abril...
O Descobrimento 
Foi descoberto... O Tratado de Tordesilhas, concluído a 7 de junho, assinado a 2 de julho de 1494 em Arevalo, dizia que todos os descobrimentos portugueses ao oriente de uma “raya ou linea derecha de polo a polo... a tresientas & setenta leguas de las yslas del Cabo Verde”, ou que, desde essa data, viriam a descobrir os Portugueses, seriam deles; para o ocidente seriam dos Castelhanos. A linha limitante ou divisória das duas bandas do mundo seria riscada por “pilotos, como astrólogos y marineros & qualesquer otras personas que convengan”, dentro de dez meses. Isto é ao tempo de Dom João II; Dom Manuel pede à Santa Sé confirmação do Tratado, o que Júlio II concede, a 24 de janeiro de 1506. A pedido dos reis de Espanha, um pontífice espanhol, Alexandre VI (Bórgia), sem audiência de Portugal, dividira o mundo pelo meio e dera aos Portugueses um hemisfério limitado até 100 léguas de Cabo Verde. D. João II não reclamou do Papa, negociou com Espanha: a linha seria a 250 léguas, se os Espanhóis descobrissem novas terras ao ocidente até 20 de julho de 1494, de 370 se isso não tivesse ocorrido até esta data. A linha do Pontífice caía no mar, deixando a Índia, pela África, aos Portugueses; a concessão a Colombo, até onze dias da assinatura do tratado, dar-nos-ia um terço, ainda assim, do Brasil; a linha definitiva deu-nos o Brasil quase todo, da embocadura do Amazonas, ao limite sul de S. Paulo. A 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do arquipélago de Cabo Verde... acabava o hemisfério português pelo ocidente... Dom João II insistente, tenaz (el Hombre, como lhe chamava Isabel a Católica) e os seus diplomatas e técnicos previram o Brasil, aí incluído: a Espanha e a Igreja concediam-lhe a África e as Índias, supondo que o contentavam; não, ele queria mais, e exigiu também o Brasil... Duarte Pacheco Pereira, o grande piloto, escritor, cosmógrafo e herói que veio com Cabral ao Brasil, e fora dos negociantes de Tordesilhas, dirigindo-se a el-Rei D. Manuel escreveu, em 1506, no Esmeraldo: “Por tanto bemaventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro anno de vosso Reynado do hano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte oucidental passando alem ha grandeza do mar ociano honde he achada & navegada huma tam grande terra firme com muitas e grandes Ilhas ajacentes a ella que se estende a setenta grados de Ladeza da linha equinocial contra ho polo artico.” (Esmeraldus de Situ Orbis, cit. 1. I, cap. II, p. 7). “É achada e navegada”, traduzem os comentadores: achou-se e navegou-se o Brasil. Mas, em 1498, Dom Manuel mandara Duarte Pacheco achar esse Brasil suspeitado em Tordesilhas, em 1494, pelos Portugueses, um deles esse Duarte Pacheco que, em 1500, vem, com Cabral, a isso...(6) O depoimento de Pero Vaz, do Mestre João, físico e cirurgião, que vinha na Armada, e do Piloto Anônimo, sobre o descobrimento, em 1500, não revela surpresa e imprevisto... O Piloto refere “o grandíssimo prazer” do achamento. Achar o que se procura faz isto. O imprevisto não; esse, surpreende(7). Nesses documentos, os únicos de testemunhas, não há tempestades, ao menos a invocada para o desvio da rota. Vasco da Gama passara também ao ocidente de Cabo Verde, empegado no mar, para evitar as calmarias africanas e dobrar de largo o Cabo de Boa Esperança, como fez Cabral, mas não aportou ao Brasil... Mestre Joham, o físico da armada, diz a el-Rei D. Manuel: “Quando, senor, al sityo desta tierra, mande Vossa Alteza traer un napa-mundi que tiene Pero Vaaz Bisagudo(8), e por ay podrra ver Vosa Alteza el sityo desta tierra”, “en pero, aquel napa-mundi non certyfica esta tierra ser habytada, o no. Es napamundi antiguo”... Já o Brasil estava em “napamundi antiguo”: ao menos sabia-o um dos descobridores... Fundado nestes dois documentos, de Duarte Pacheco e de Mestre Joham, ambos testemunhas presenciais do achado de 1500, diz o americanista Henri Vignaud: “não poderá haver dúvida alguma que não é Cabral o primeiro descobridor português do Brasil”. (Americ Vespuce — ses voyages... Paris, 1911, p. 143-5). Depois disso, continuar-se-á a falar da “tempestade”, “das calmarias”, do “acaso”(9), como fizeram, da quarta-feira, 22 de abril, 3 de maio, que foi domingo... Ignorância ou teima: ou as duas. A 22 de abril, à tardinha, houveram vista da terra, o monte Pascoal, o arvoredo. A 23 navegaram contra a terra e surgiram na foz de um rio. Viram homens nus, com arcos e flechas. A 24 navegaram ao longo da costa, buscando abrigo, aguada e lenha. Acharam um porto, abrigado por arrecifes e aí ancoraram. A 26, domingo, o franciscano Fr. Henrique Soares, de Coimbra, ajudado por outros religiosos, celebrou, num ilhéu, a primeira missa(10). Na sexta-feira, 1.º de Maio, erigiram em terra firme uma grande cruz de madeira, feita por dois carpinteiros de bordo, com as armas e divisas de Dom Manuel, sendo rezada então a segunda missa. Para o reino, a dar notícia do achado, seguiu o navio de Gaspar de Lemos. Com as araras e papagaios, arcos, flechas, penas, amostras da terra e da gente, pretende Castanheda fora um índio: “& mandou-lhe hu home daquela terra” (op. cit., 1. I, c. XXXI, p. 72). A armada agora de onze navios, partiu a 2 de Maio, sábado, rumo de África, para passar o Cabo de Boa Esperança pelo largo, segundo recomendava a experiência de Bartolomeu Dias e de Vasco da Gama.
O Nome
Disse Pero Vaz: “ao qual monte alto o capitam pos nome o monte Pascoal e aa tera a tera de Vera Cruz”(11) (op. cit.). Dom Manuel, escrevendo aos Reis de Espanha, diz: “mi capitan com trece naos partio de Lisboa a nueve de Marzo dei año pasado. Em las octavas de la pascoa siguiente llegó á una tierra que nuevamente descubrió, á la qual puso nombre de Santa Cruz”. (Hist. da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. II, p. 155-164). No regimento dado a João da Nova, capitão da terceira armada, logo depois da de Cabral, vem o nome de Ilha da Cruz (Varnhagen, História Geral, 4.ª ed., t. I, p. 78; António Baião, “O Comércio do Pau-Brasil”, Hist. da Colonização Port. cit., t. II, p. 321). Portanto, oficialmente, Vera Cruz, Santa Cruz, Cruz... Houve mais: Terra dos Papagaios, pelas grandes e belas araras, que impressionavam, e Pedrálvares enviara ao reino por Gaspar de Lemos, nome que vem em alguns mapas antigos. Cretico (Giovanni Matteo), agente em Lisboa da Senhoria de Veneza, escrevendo dali em 22 de Julho de 1501, diz, narrando a viagem de Cabral: “ha discoberto una terra nova, chiamano la terra deli Papagá, per esserli papagá longi une brazo e piú, de vari colori, de li qual ne hanno visto doy”. (Paesi novamente retrouati, t. VI, Cap. CXXV, Vicentia, 1507). Também aí vem carta de Pietro Pasqualigo (Cap. CXXVI), de 18 de outubro de 1501, em que diz: “com la terra dei Papagá noviter trovate per le navi di questo re che andarono in Calicut”. Logo, porém, começou o Brasil. Escreveu João de Barros: “Per o qual nome Sancta Cruz foi aquella terra nomeada os primeiros annos: & a cruz arvorada algus durou naquelle lugar. Porem como o demonio per o sinal da cruz perdeo o dominio que tinha sobre nós, mediante a paixão de Christo Jesu consumada nella: tanto que daquella terra começou de vir o pao vermelho chamado brasil, trabalhou que este nome ficasse na bocca do povo, & q se perdesse o de Sancta Cruz: Como que importava mais o nome de hum pao que tinge panos: que daquelle pao que deu tintura a todolos sacramentos perque somos salvos...” (Décadas, I, 1. V, cap. II). Recentemente, disse Duarte Leite: “Em 1503 já se empregava o termo Brasil, porque o diz João Empoli numa carta transcrita em Ramusio”. (Hist. da Colonização Portuguesa, vol. I, p. 198). Capistrano de Abreu dissera: “Empoli, em 1504, chamava-a Vera Cruz ou Brasil” (Ramusio, Navig., I, p. 145). Desde este ano o nome Brasil apareceu em documentos portugueses e alemães e cada vez se generalizava mais. (Wieser, Magalhães-Strasse und Austral Continent, Innsbruck, 1881, ps. 93-94; Materiais e Achegas, I, nota). “Empoli”, não é exato. Duarte Leite e Capistrano foram induzidos em erro por Ramusio que, na narrativa de Empoli, introduziu um aposto comprometedor, em 1550-4: depois de “terra della Vera Croce”, esclareceu: “over de Bresil cosi nominata”. O texto autêntico, reproduzido na Racolta Colombiana, parte III, vol. II, Roma, 1893, p. 180, que faz fé, diz apenas “Vera Crocie è si nomata”. Portanto Giovanni da Empoli, feitor de Bartolo Marchioni, numa nau de Portugal, não chama, em documento de 16 de Setembro de 1504, (o 1503, de Duarte Leite,(12) vem do começo dele: “la partita nostra fu di Lisbona a di 6 d’Aprile 1503...”), a Vera Cruz, Brasil. Aliás, atente-se nisto: Ramusio escreve duas vezes “Bresil”, e como, adiante, o documento fala em verzino, não parece admitir identidade de nome entre a terra e a madeira... Capistrano cita Wieser, que diz, de fato: “Acho o nome Brasil já desde 1504 repetidamente em uso” (p. 93). A saber: Beschreibung der Meerfahrt von Lissabon nach Calacut, vom J. 1504 (Descrição da Navegação de Lisboa a Calacut, do a. 1504): “chama terra nova de Prisilli”; Empoli, no fim de 1504, e cita Ramusio, Venetia, 1563, etc; um “diário de bordo” de 1505-6, diz: “aos 6 dias de mayo foron leste hoeste com a terra de Brazil 200 leguas e dhy se foron ao Sul ata 40 grados” (Pbl. por Schmeller em seu artigo: “Ueber Valentin Fernandez Alemã,(13) etc.” — Abhandlungen der I cl. d. k., bayrischen Akademie d. W. Bd. IV Abtheilung, p. 41 f.; finalmente, a “Gazeta Alemã”, Newen Zeytung aufs Presillg Landt, da qual Varnhagen, op. cit.. p. 98, dissera, citando outrem, que deviam ser informações “de 1507”, e que, na “História Geral”, ainda é mais decisivo e antecipado: “Julgamos de tal importância alguns períodos dessa relação ou gazeta (que supomos haver sido escrita em Lisboa por um estrangeiro e publicada pela primeira vez em 1506”... (Varnhagen, op. cit., II, 4.ª ed., p. 98-9). Ora, o mss. da “Gazeta” foi achado, posteriormente, por Konrad Haebler, em 1895, no Arquivo dos Príncipes Fuegger, em Augsburgo, e traz a data de 1514... (cf. Clemente Brandenburger — A nova gazeta da Terra do Brasil, São Paulo — Rio, 1922). Portanto, Empoli, em 1504, e a Gazeta, em 1506, afastados... Chamei a atenção para o modo de Ramusio, ainda em 1550-63, escrever na sua interpolação “Bresil”, distinguindo este nome da terra, do nome da madeira, escrito adiante, em italiano, “verzinio”. É que, aqui, tem cabida a hipótese que aquele nome é de origem francesa... Os nomes lusitanos Vera-Cruz, Santa Cruz, não seriam mudados pela piedade portuguesa: foram os piratas franceses, desde antes de 1504, (quando vieram, ao dizer de Anchieta, pela primeira vez) que designaram a terra pela riqueza conhecida, “terre du brésil”, depois daí “le Brésil”, como ainda hoje. Nós tivemos, pela divulgação e aceitação do nome, de traduzi-lo: “Brasil”. Como quer que seja já em 1510 está em Gil Vicente, no Auto da Fama, “terra do Brasil”: mas será mesmo o Auto de 1510?(14) De 1511, talvez: “Llyuro da naao bertoa que vay para a terra do brasyll... que partiu deste porto de Lixª a 22 de fevº de 511” é o título de um documento publicado por Varnhagen. A nau partiu em 11, mas o livro teria sido escrito nessa data? Tudo leva a crer, mas não é certo. Certa é a carta de Afonso de Albuquerque, de 1 de Abril de 1512, da Índia, a el-Rei D. Manuel, “a qual (carta de um piloto) tinha ho cabo de Bôoa Esperança, Portugal e a terra do Brasyll...” (Alguns documentos... do Tombo, cit., p. 261). Por certo é também de 1512 o mapa de Jerônimo Marini — Orbis Typus Universalis Tabula Hieronimi Marini fecit Venetia MDXII — cujo original possui o nosso Ministério do Exterior, na Biblioteca do Itamarati, onde se lê pela primeira vez, em planta: “Brasil”. Um ano depois, e é interessantíssimo, é o próprio Dom Manuel que mudara Vera Cruz em Santa Cruz, segundo disse aos reis de Castela Fernando e Isabel e agora a um deles o diz, em 13 de Setembro de 1513: “na teerra... que he pegada com a nossa teerra do Brasyl” (Carta a el-Rei D. Fernando, de Castela, in Alguns documentos, p. 292). Mas é sempre “terra do Brasil”, como se dissesse, por abreviação, “terra do (pau) brasil”: o documento escrito em que primeiro aparece Brasil só, como no mapa de Marini é o de Dom Rodrigo de Acuña, de 15 de Junho de 27, ao bispo de Osma, dando conta da perda da armada que mandara Carlos V às Molucas e pedindo interceda junto de D. João III para lhe obter a liberdade, preso que está na feitoria de Pernambuco (nos baixios de D. Rodrigo, onde naufragara, e naufraga, mais tarde, o primeiro Bispo, comido pelos índios). Diz ele: “nos convino arrybar al Brrasil”; (nesta carta há ainda “tyerra dei Brrasil” e “nao cargada de brrazil” (Alguns documentos... do Tombo, cit. p. 488-9). O nome Brasil vem de longe. Disse Humboldt, vem de Samatra, e levou quatro mil anos para nos chegar... É o nome de uma madeira tintorial, a Cesalpina ecchinata, especiaria trazida do Oriente à Europa, nome variamente escrito — braxile, bresillum, brisilium, bersi, verzi, verzino, como recentemente, há cinco séculos, o chamavam os Venezianos. Já dele falam o geógrafo árabe Abuzeid El Hacen (IX século), Endrisi e Chrestien de Troyes no século XII: este escreve mesmo Braisil, que dá, em francês, a pronúncia do nome atual nesse idioma. Teria vindo à Europa depois dos primeiros Cruzados, por volta de 1140. Tirava-se, do toro, a casca e o líber, e apenas o cerne vermelho servia para tingir panos e fazer tinta, para iluminar manuscritos, dando tons róseos às miniaturas. A madeira, dura e corada, também aproveitava à marcenaria.
A geografia apoderar-se-ia do nome, e terras do Brasil houve, antes da nossa: Krestchmer encontrou em mapas medievais as seguintes variantes: Brazi, Bracier, Brasil, Brasiel, Brazil, Brazile, Braziele, Braziel, Bracil, Braçil, Braçill, Bersill, Braxil, Braxili, Braxiel, Braxyili, Brisilge...(15). É uma ou mais ilhas do Ocidente, no grupo dos Açores, ou na altura da Bretanha, ou não longe da Irlanda. Ainda hoje há uma pedra Brazil Rock, na Irlanda, e um monte Brasil, junto à cidade de Angra, na Ilha Terceira, dos Açores. Num mapa de 1351 já aparece esta “ínsula do Brazil”, nesse Açores. Em 1480 partiram de Bristol navios à procura da Ilha Brasil. Em 1497 Ayala, legado de Espanha junto à Corte de Inglaterra, dizia que de sete anos àquela parte partiam de Bristol, anualmente, navios à mesma pesquisa. Lá está, no mapa de Toscanelli, (1474) ao norte e oriente, a ilha Brasil... Até 1875 o Almirantado inglês manteve nas suas cartas essa “Brasil Rock”(16). Diz a erudição que os Árabes chamavam ao pau bakkam, que traduziram em latim brasilium, procurando a analogia da raiz semítica bakkham (ardente) com a ariana bradsch, em português brasa, italiano brace, francês braise. Como se deu tal nome à geografia, é controvertido: Brasil, indicaria fenômenos vulcânicos notados no arquipélago açoreano; ou aí se teria encontrado senão o verdadeiro brasil, pelo menos algum sucedâneo, talvez a urzela. Contudo Capistrano de Abreu, reparando que nas formas gráficas e geográficas de Kretschmer não se vêem formas congêneres do verzi ou verzino, diz poder-se concluir que o Brasil, ilha ocidental, nada tem com o produto oriental. Conclui que natural é proceda o nome do celta, e há quem o decomponha braza, grande, i: em todo o caso Brasil, ilha, aparece sempre no Atlântico e sempre a W de terras primitivamente habitadas por Celtas. Os índios chamavam à planta arabutan ou ibirapitanga. Os Portugueses conheciam o brasil: a 19 de outubro de 1470 Afonso V proibia aos traficantes da Guiné comerciarem que as tintas do brasil, protegendo talvez o produto das ilhas. Quando se começou o tráfico com os selvagens de Santa Cruz, a primeira matéria de exploração foi o brasil. No Esmeraldo, escrito em 1505, escreveu Duarte Pacheco da terra: “é achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas” — (cap. 2, do I livro). Terre du brésil lhe chamaram os piratas franceses, e, depois, o menor esforço daria le Brésil, como ainda hoje. Esse menor esforço foi a causa da troca, que tanto indignou João de Barros: os políticos e sacerdotes, que batizam e dão nomes, não advertem que eles prevalecem na ordem da simplicidade. Em alguns anos apenas, a Terra de Vera Cruz já era pois, o Brasil....(17). E era — o que mais admira, na expressão do próprio Dom Manuel: “na teerra... que he pegado com a nossa teerra do Brasyl”. Piedosamente diríamos: nome mudado na crisma... A palavra teve, no começo, várias acepções, que foi perdendo: Pau-brasil: “Cá ha assuquer e algodão, brasil e ambre e resgates” (Cartas avulsas de Jesuítas, Rio, 1931, Carta XLVII). “Pera ali carregarem de brasil”. (Id. Carta XXVII). A terra: “Todo o Brasil, que assim se pode dizer” (Id. Carta LVI). “Nestas partes do Brasil” (Id. Carta LXIII). A gente: “Para estudantes — brasil fazem-no muito bem”. (Id. Carta LIV). “Os que tangiam eram meninos brasis” (Id. Carta LV). A língua: “Espera em pouco tempo falar tão bem brasil, como agora italiano; às vezes lhe falava homem português e ele respondia brasil”. (Id. Carta XLVIII). “Brasileiro” foi, a princípio, o traficante ou o ocupado em tirar o brasil, como de baleia “baleeiro” (Varnhagen). A desinência “eiro” é profissional: ferreiro, carpinteiro. Aqui, de profissional, passou a patronímico: os mineiros que trabalhavam nas minas gerais ficaram depois, os filhos de Minas Gerais. Contudo tentou-se “brasiliense”, “brasílico”, brasiliano“, sem êxito, até agora. Brasileiro ficou o filho do Brasil: que importa tal dignificação, se brasil ficou também dignificado em Brasil?

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